Emanuel Alencar: Agonia e novas promessas na Baixada



Quem vive o dia a dia dos rios Sarapuí, Iguaçu e Botas sabe que a situação tem piorado, a reboque das ações interrompidas e de muito desleixo

Se nada atrasar — o que é bastante improvável — está marcada para junho de 2026 a retirada de 359.563 m³ de detritos de rios da Baixada Fluminense, o que daria para encher até a boca 90 mil caçambas, dessas que a gente vê nas ruas, de detritos dos principais rios da região. Já há licença prévia (LP), concedida pelo Inea. São R$ 368 milhões, via Caixa Econômica Federal, para melhorar vazões de rios e recuperar sistemas anticheias em Caxias e Belford Roxo. Não dá para negar, entretanto, que a sensação é de eterno retorno ao agoniante ponto de partida: centenas de famílias voltaram a ocupar as áreas de inundação depois dos reassentamentos de 3 mil famílias de 2007 a 2012, pelo Projeto Iguaçu.

Quem vive o dia a dia dos rios Sarapuí, Iguaçu e Botas sabe que a situação tem piorado, a reboque das ações interrompidas e de muito desleixo. Muita gente voltou a ocupar áreas de inundação. Gilciney Gomes, pescador de Duque de Caxias, interrompe a viagem de barco ao lado da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) e me mostra o lixo agarrado à hélice. Os pescadores mal conseguem sair do Rio Iguaçu, em Campos Elíseos, rumo à Baía de Guanabara — há um gigantesco banco de sedimentos que os impede. “Aqui a gente pescava bastante há 20 anos. Tudo tem piorado bastante”, comenta, observando as águas escuras e de cheiro insuportável às margens do antigo aterro de Jardim Gramacho. “Os peixes e os caranguejos sumiram. Não tem praticamente mais nada”.

É difícil descrever o mau cheiro que exalam os principais rios que deságuam na Baía de Guanabara: amônia, gás sulfídrico, metano. Uma sopa de poluentes. Perto de um bonito manguezal e sob o olhar de garças destemidas, borbulhas escuras emergem do fundo do Sarapuí. Pequenos peixes buscam alimento com o revolvimento da poluição provocado pelos barcos. Lixo não falta: sofás, mesas, sacos lotados de dejetos domésticos, garrafas. O cenário é desolador. Como é possível imaginar uma Guanabara limpa assim?

Nas chuvas de janeiro de 2024, os sistemas de comportas e de contenção de inundação do Pilar (Duque de Caxias) colapsaram, e a rodovia Washington Luiz ficou debaixo d’água. A demora no escoamento dos rios deixou hidrólogos de cabelo em pé. O esforço nesta nova etapa do Projeto Iguaçu é ao menos garantir um escoamento mais rápido — não há previsão de novos reassentamentos de famílias que vivem em áreas de risco extremo. “Vamos começar a limpeza da Baía de Guanabara para dentro”, diz Luiz Renato Vergara, diretor-executivo da Coordena, consultora do Projeto Iguaçu. “Lógico que temos que fazer reassentamentos, as obras ficaram mais de dez anos paradas. A estratégia foi recomeçar melhorando o fluxo dos rios. As pessoas têm que acreditar que as obras estão acontecendo. Vamos ter comissões de acompanhamento com a sociedade civil. Essa nova etapa está sendo escrutinada pela Caixa desde abril. É dinheiro a fundo perdido.”

Escaldada por casos tenebrosos de violações de direitos socioambientais, a Baixada ainda se lembra de um episódio bizarro em 2012: o leito do Rio Calombé, em Caxias, entrou em combustão, tamanha a quantidade de resíduos químicos despejados. Na ocasião, uma empresa foi multada pelo Inea. Há outras centenas pouco fiscalizadas. Os alertas da emergência climática sugerem pressa nas intervenções, e o calendário eleitoral costuma atropelar os otimismos. No balanço do barquinho batizado de “Deus”, Gilciney se agarra à fé para vislumbrar um futuro melhor. “Temos que acreditar, não é?”

*Jornalista e gestor ambiental
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Rogerio Gomes - Controle Social Projeto Iguaçu/PAC

Ex-coordenador Geral da Comissão Executiva do Fórum Regional de Controle Social do Projeto Iguaçu/PAC e Representante do CAO/LOTE XV - Comitê de Acompanhamento e Fiscalização das Obras do Projeto Iguaçu na Região do Rio Iguaçu - Bairro Lote XV - Belford Roxo - RJ - BRASIL

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