![]() |
| Foto: PMBR |
MUDANÇAS CLIMÁTICAS - De Duque de Caxias a Nova Iguaçu, uma agenda que reúne poder público, especialistas, escolas e sociedade civil coloca a Baixada Fluminense diante de uma pergunta urgente: as cidades estão preparadas para enfrentar os próximos eventos climáticos extremos?
A resposta ainda parece estar longe de ser confortável.
Entre os dias 24 e 28 de agosto de 2026, municípios da Baixada Fluminense recebem uma importante agenda de discussão sobre riscos climáticos, vulnerabilidades e preparação das cidades para enfrentar eventos extremos. A programação passou por Duque de Caxias, na segunda-feira (24), esteve em Belford Roxo, na quarta-feira (26), chega a Mesquita nesta quinta-feira (27) e terá continuidade em Nova Iguaçu na sexta-feira (28).
A iniciativa faz parte de um processo mais amplo de construção de cidades resilientes desenvolvido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro em parceria com o ONU-Habitat, dentro do Programa Ambiente Resiliente e do RJ Resiliente.
A importância da iniciativa pode ser medida pela própria realidade do estado. Segundo a ONU-Habitat, entre 2010 e 2023 os desastres relacionados a chuvas intensas no Rio de Janeiro afetaram mais de oito milhões de pessoas, provocando mortes, desabrigados, desalojados e importantes prejuízos econômicos. Dos 92 municípios fluminenses, 75 estão entre os municípios brasileiros mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações.
A avaliação desenvolvida pelo Governo do Estado e pelo ONU-Habitat reúne informações socioeconômicas, ambientais, de infraestrutura e governança e procura transformar esses dados em instrumentos capazes de orientar políticas públicas. Entre os materiais produzidos estão relatório técnico, ações prioritárias, ações do Estado, nota metodológica e atlas de mapas.
O mapa que começa com quem vive no território
Um dos aspectos mais importantes das agendas realizadas na Baixada é justamente a possibilidade de colocar o conhecimento técnico em diálogo com a experiência de quem vive diariamente nos bairros.
Em Belford Roxo, uma oficina permitiu que os participantes identificassem diretamente no mapa do município pontos considerados críticos, como:
Locais sujeitos a inundações;
Áreas com ocorrência ou risco de deslizamentos;
Regiões onde há maior incidência de doenças relacionadas às mudanças climáticas;
Áreas sujeitas a altas temperaturas e ilhas de calor.
Mais do que simplesmente localizar problemas, a proposta é permitir que a população indique onde os problemas acontecem e, principalmente, apresente soluções a partir da realidade de cada território.
A condução da atividade contou com o geógrafo Luciano Paez, do ICLEI, e representante do ONU-Habitat, colocando conhecimento técnico e conhecimento comunitário lado a lado.
É justamente essa combinação que pode fazer a diferença entre um mapa produzido em um escritório e um diagnóstico capaz de refletir a realidade dos bairros.
Belford Roxo: escolas mostram que educação ambiental também é prevenção
Em Belford Roxo, além dos agentes da Prefeitura, participaram o secretário municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Flavio Gonçalves, e o secretário de Defesa Civil, Tenente Perini.
A agenda também contou com a participação de professores e estudantes das escolas municipais Tenente Walmor e José Pinto Teixeira, que apresentaram projetos e atividades desenvolvidos nas unidades de ensino relacionados às questões ambientais.
A presença dos estudantes chama atenção para um aspecto fundamental: falar de adaptação climática não significa apenas discutir obras, drenagem, Defesa Civil ou sistemas de alerta. Significa também formar uma geração capaz de compreender o território onde vive e participar das decisões que determinarão o futuro da cidade.
Por outro lado, um ponto merece reflexão: a participação de representantes do movimento social organizado e da sociedade civil de Belford Roxo foi pequena.
![]() |
| O Técnico da Defesa Civil de Belford Roxo Roberto Ricardo ao lado do representantes da Secretaria Estadual do Ambiente durante a identificação de pontos de Deslizamentos na cidade. |
E isso pode representar uma perda importante.
Se quem vive nas áreas de inundação, nos locais sujeitos a deslizamentos, nos bairros mais quentes e nas regiões onde os serviços públicos são mais frágeis não participa das discussões, existe o risco de que parte significativa da realidade territorial não apareça no diagnóstico.
A experiência de quem já enfrentou os desastres
Entre os participantes da agenda esteve Rogério Gomes, ex-coordenador da Comissão Executiva do Fórum Regional de Participação e Controle Social do Projeto Iguaçu.
Sua participação contribuiu para a construção do mapa e para o debate sobre a necessidade de tratar os fenômenos climáticos com responsabilidade, planejamento e participação popular.
Rogério chamou atenção para uma questão prática: as cidades ainda não estão preparadas para enfrentar adequadamente eventos climáticos extremos.
Como exemplo, lembrou que a forte ventania que atingiu a cidade de Belford Roxo no início do mês de agosto deixou parte de bairros como Lote XV, Jardim Brasil, Parque Amorim e Vale do Ipê sem energia elétrica por aproximadamente quatro dias. O APAGÃO prejudicou principalmente as famílias que tem pessoas com algum tipo de deficiência e que dependem diretamente do uso de equipamentos elétricos, aquelas que trabalham em casa pela internet de onde tiram seu sustento entre outras situações que prejudicaram a população.
Para ele, o episódio demonstrou não apenas o impacto imediato de um evento climático, mas também a dificuldade de recuperação da cidade depois que o fenômeno acontece.
E essa talvez seja uma das questões centrais do debate: não basta sobreviver ao desastre; é preciso ter capacidade de recuperação.
Uma cidade resiliente precisa conseguir prevenir, responder e se recuperar.
A lição das enchentes de 2024
Rogério também trouxe para o debate a experiência vivida pela população de Belford Roxo depois das enchentes de 2024, especialmente em relação ao Cartão Recomeçar.
Por isso, a experiência relatada por moradores e lideranças precisa ser considerada também como parte do diagnóstico de vulnerabilidade: a capacidade de resposta social e administrativa depois de um desastre é tão importante quanto a capacidade de prevenção.
Segundo o relato apresentado por Rogério durante a agenda, muitas famílias enfrentaram um processo extremamente difícil para tentar acessar os benefícios, incluindo filas e deslocamentos, enquanto parte da população teria permanecido sem receber os auxílios esperados.
A crítica apresentada é que uma população já castigada por uma enchente não pode ser submetida novamente a uma espécie de "segunda enchente" provocada pela burocracia, pela demora ou pela falta de coordenação das políticas públicas.
É uma questão que merece investigação, transparência e acompanhamento social.
Participação popular não é detalhe: é parte da solução
O grande desafio colocado pelas agendas da Baixada é fazer com que a participação social deixe de ser apenas uma presença simbólica.
Moradores conhecem os pontos onde a água sobe primeiro.
Conhecem os rios que transbordam.
Sabem quais ruas ficam isoladas.
Conhecem os locais onde encostas apresentam problemas.
Sabem onde faltou energia depois de uma tempestade.
Conhecem as dificuldades para acessar equipamentos de saúde, transporte, abrigo e benefícios públicos depois de um desastre.
![]() |
| Mapa de Duque de Caxias onde foram feitos os apontamentos de locais mais vulneráveis as enchentes e deslizamentos. |
Esse conhecimento precisa ser incorporado ao planejamento.
A própria estratégia do Programa Ambiente Resiliente prevê processos de planejamento climático baseados em evidências e participação, com apoio do ONU-Habitat e do ICLEI para a construção dos Planos Locais de Ação Climática.
Por isso, movimentos sociais, associações de moradores, coletivos ambientais, organizações não governamentais, universidades, pesquisadores, professores, estudantes, sindicatos, entidades comunitárias, lideranças religiosas e demais organizações da sociedade civil precisam ocupar esse espaço.
Não apenas para reivindicar, mas também para ajudar a produzir informação, fiscalizar políticas públicas e acompanhar se as soluções propostas realmente chegam aos territórios.
E quem fica de fora?
É de suma importância a avaliação dos riscos, para municípios que eventualmente ainda não tenham aderido ou que não participem efetivamente das etapas de construção.
Ficar fora de uma iniciativa dessa natureza significa potencialmente perder acesso a processos de capacitação, diagnósticos, integração institucional, troca de experiências, planejamento climático e mecanismos que podem ajudar a estruturar projetos de adaptação e prevenção.
O próprio Governo do Estado e o ONU-Habitat destacam que o diagnóstico deve servir como ferramenta para aprimorar políticas públicas e ampliar a capacidade de resposta das cidades diante dos desastres e das mudanças climáticas.
Portanto, aderir é importante, mas participar de verdade é ainda mais importante.
![]() |
| Luciano Paez do ICLEI ao lado do Mapa de Belford Roxo identificado com os pontos principais de Inundações e Deslizamentos. |
A Baixada não pode esperar o próximo desastre
A sequência de agendas em Duque de Caxias, Belford Roxo, Mesquita e Nova Iguaçu acontece em uma região que conhece há décadas os efeitos das chuvas intensas, das inundações, da ocupação desordenada, da deficiência de drenagem e das desigualdades territoriais.
A questão agora é transformar conhecimento em ação.
Mapear uma área de inundação não basta.
É preciso discutir drenagem.
Identificar uma área de deslizamento não basta.
É preciso discutir prevenção, habitação, contenção, reassentamento quando necessário e proteção social.
Identificar uma ilha de calor não basta.
É preciso pensar em arborização, áreas verdes, conforto térmico e planejamento urbano.
Identificar doenças relacionadas às mudanças climáticas não basta.
É necessário preparar o sistema de saúde.
E identificar os pontos vulneráveis da cidade não basta se as decisões continuarem sendo tomadas sem ouvir aqueles que vivem nesses territórios.
Nova Iguaçu encerra a semana
Nesta sexta-feira, 28 de agosto, a agenda chega a Nova Iguaçu, dando continuidade a um processo que precisa ser visto não como uma reunião isolada, mas como parte de uma construção permanente.
A emergência climática não respeita limites administrativos. A água que transborda em um município pode afetar outro. A degradação de um rio pode atingir várias cidades. Os sistemas de transporte, energia, saúde, saneamento e defesa civil estão interligados.
Por isso, a resiliência da Baixada Fluminense também precisa ser pensada regionalmente.
O desafio é transformar mapas, diagnósticos, oficinas e debates em planos, obras, políticas públicas, orçamento, fiscalização e participação social permanente.
A mensagem que fica dessas agendas é simples, mas urgente:
não é possível construir cidades resilientes sem ouvir quem vive nelas.
E talvez a maior contribuição que a população possa dar seja justamente participar antes que o próximo desastre aconteça — e não somente depois que a água baixar.
Porque prevenção custa menos do que reconstrução.
E planejamento custa muito menos do que vidas perdidas, famílias desabrigadas e cidades incapazes de se recuperar.
Por: Rogerio Gomes
Matéria feita com ajuda da IA.
Tags
baixada fluminense
belford roxo
duque de caxias
iclei
mudanças climaticas
nova iguaçu
onu habitat
plano local de ação climática
prefeitura de belford roxo







